quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os Bentevis e Eu

Hoje é um dos dias mais felizes de minha vida, sem demagogia.
Esse dia remete aos meus tempos de criança, onde frequentava fazenda e sítios no Estado do Rio de Janeiro para apreciar e desfrutar da natureza, e do contato diário e revigorante com o mar.
Pois bem, aqui nessas pairagens do cerrado, onde me encontro atualmente radicado, ainda continuo a admirar a natureza, contemplando-a sempre que possível.
Essa condição somente é obstaculizada com a necessidade constante de outros afazeres, inclusive o conserto das "máquinas da modernidade".
Para tanto, nessa manhã, com tempo ameno e céu azulado, veio o mecânico buscar o meu carro para consertar, conforme o combinado.
Entre o recolhimento de "tralhas" espalhadas dentro do veículo, entabulamos conversa diversificada.
Durante esse "papo", contei a ele que estava "levando uma surra" de um grupo de bentevis. Já havia comentado com minha família sobre o evento, dias atrás. Prontamente ele respondeu que poderia haver um ninho por perto.
O interessante de tudo isso é que acreditava piamente se tratar de um "ritual de expulsão" pela defesa de comida.
Ocorre que tenho o costume diário de ir aos pés de acerola, jabuticaba e, particularmente, o de pitanga, para admirá-las, verificar o crescimento sadio delas ou simplesmente tomar "suco de fruta na fonte". Na verdade comia-as direto do pé.
Porém, o bentevi não tem nada a ver com isso. Aliás, coincidência ou não com a árvore pitangueira, os bentevis são representantes do gênero "Pitangus", da espécie "Pitangus Sulphuratus"(*).
Intrigado, percebi que o trabalho de expulsão dos bentevis tinham um certo "balé pré definido" de ataque. A ave macho vinha a toda velocidade em minha direção, em vôo rasante oscilatório, do pé de acerola passando pela pitangueira onde me encontrava e seguia em subida frenética aos fios do poste de iluminação. Essa trajetória do bentevi, de oeste para leste, ou vice-versa, combinava com um zigue-zaguear frenético e nervoso, intercalado por alternância da altitude de voo. É um espetáculo belíssimo de se ver. Como diria vovó: coisa mais linda!
Então, "de prima" supus que a "bronca" dos bentevis fosse motivada pela minha invasão em sua fonte de alimentação, pois estava comendo as acerolas e as pitangas; madurinhas que só.
Quanta ignorância!
Na verdade, descobri hoje, que o motivo era outro.
O cenário do "embate" mede, restringindo-se o espaço, em dez por vinte e cinco metros quadrados. Lá se encontra uma variedade de frutíferas, cinco pés de coco, da goiabeira. Também há arbóreas de médio porte margeando o muro lateral e central, de onde brota uma floração vermelha, despontando de uma base verde escura. Referenciando a vegetação do local, há no terreno uma palmeira em seu terço final. Todo a área está cercada por grama esmeralda. No canto do muro, próximo à rua, uma torneira de jardim para a aguação diária. Esse cenário está justaposto a outro maior, mas contendo somente árvores jovens e extenso gramado.
A goiabeira, ah, a goiabeira, como as demais, está em época de floração. Suas extremidades estão repletas de pontos brancos, prenúncio de frutos saborosos.
Quem poderia imaginar local mais puro para desfrutar a vida!
Numa época em que os edifícios e o asfalto tomam conta da natureza bucólica, é uma dádiva divina, e fruto de labuta ambiental sistemática, a existência desses espaços.
As pessoas somente pensam em cimentar, asfaltar, concretar, sem o mínimo de consciência ecológica ou ambiental, secundadas por nossos governantes e prefeitantes. Ou vocês acham que o culpado pelas enchentes em todos os cantos da cidade, que sofreram intervenção asfáltica desplanejada, é o DIVINO? Lógico que não! Nossos mandantes não estão de olho nos passarinhos, mas nos votos das próximas eleições. As promessas de campanha terminam quando, na maior cara-de-pau, promovem o aumento do IPTU, da passagem de ônibus e mostram a falta de tato na gestão dos postos de saúde, para início de conversa, papo muito furado por sinal.
Voltemos aos bentevis.
Antes podemos fazer uma aposta? Alguém acredita que a obra eleitoreira de asfaltamento (!!??) da avenida Afonso Pena, em recém recapeamento (agora em termo correto) nesse mês de outubro, irá passar incólume no teste das águas, período chuvoso que se apresenta em breve? De "cara" aposto que a marcação horizontal vai ficar pouco visível, pela qualidade da tinta usada em sua marcação, pois passei em pontos onde ela já parecia ter anos de pisoteamento dos carros. Em sequência, em pouquíssimos anos, a sinalização vertical vai cair, com o apodrecimento do perfil de madeira que sustenta a placa de sinalização. Perfil de madeira? Sim, e de qualidade duvidosa. É só chegar perto e constatar. Parece que é algo sem importância, mas rende uma boa grana essa tinta e madeira mais barata. Não deveria ser de metal? Tenho essa dúvida, pois a sinalização deveria ser feita para durar pelo menos uns quinze anos, não é mesmo? Acredito ser algo que poucos devem ter se apercebido. Veja bem, daqui a pouco vai ter placa rolando nas ruas da cidade! Tudo com a complacência da falta de fiscalização em todos os níveis.
Fiscalização eu disse? Ah, essa parece não dar o "ar da graça" antes, durante e depois das obras concluídas. Parece fantasma. Nem os demais poderes intervêm, cobrando e exigindo uma obra de qualidade, de acordo com o proposto no PROJETO BÁSICO, o qual, certamente, não é seguido pelas empreiteiras, e muito menos controlado em seu cumprimento. Veja-se o asfalto colocado na avenida citada, cujas obras de arte nem foram "tocadas" e têm arremate tosco, feio, manchando a imagem da "cidade morena".
Todos, em verdade vos digo, estão se lixando ... O povo ÓH ... TOC TOC
Voltemos à goiabeira, essa permanece vívida e impassível no seu quadrado mágico.
Espera ai, e os bentevis? O que posso dizer é que são lindos, o macho com penacho na cabeça, de papo amarelo e cauda saliente, além do grito estrilante de sonoridade suave e aguda. A fêmea, um terço menor, com tonalidade amarronzada, cauda pequena, bem torneada, acompanha comportadamente os trejeitos do companheiro. Tem um menor, metade da fêmea, mas devo ter me confundido com um pardal. Sei lá.
No espaço do evento, permeiam pombos, pardais, passam ao largo tucanos e araras, e, hoje, também vi pousado no telhado um papagaio de tamanho pequeno, ou será um periquito?
A natureza é bela, e deveria ser a segunda prioridade do planeta. Mas o homem ...
Curioso, o mecânico saiu da garagem em direção ao gramado para apontar onde ficam os bentevis. Passei à sua frente e fui direto ao "local do crime": a goiabeira. Lá percebi, entre galhos, que um ninho tomava corpo.
O mecânico se apressou e disse: isso é um ninho!
Aí "caiu a ficha" e percebi que o alvoroço dos bentevis tinha uma razão, que remonta aos bancos escolares. Se a vida ou a defesa de sua prole está em iminente perigo, é normal em qualquer espécie animal o sentimento de proteção. Nessas oportunidades, o cabeça do casal até pode se "imolar" pela família. A comida vem em terceiro plano, depois da necessidade de saciar a sede. É a lei da sobrevivência da espécie. É a topologia das necessidades de Maslow. O bentevi não estudou, no entanto, a herança genética comum das espécies está em seu DNA.
Por um lapso de tempo a emoção brotou em mim. Tinha certeza de que ao manter um espaço natureba em casa, tudo de positivo que existe no universo tende a nele se concentrar.
O bentevi é sábio, pois escolhe muito bem os locais que frequenta. Ele percebeu que sua atitude chamou a minha atenção. Inteligente, agora desfila alvissareiro perto de mim, vez que "ganhou a batalha". Em seu íntimo, o bentevi tem a certeza de que não penso em comer as goiabas da goiabeira, porque as deixarei aos meus amigos.
A goiabeira e suas compadres, as aves e os bentevis, todos me brindaram com a mais singela emoção: a companhia desinteressada e vibrante da natureza e seus atores, idílica como ela só.
Acredito que a preferência do bentevi e sua companheira pela construção do ninho em minha residência, a par das amplas possibilidades do bairro, de ter árvores mais altas e mais cerradas que o pé de goiaba, tem conotação especial: denota a confiança em uma estada segura e feliz, sem pertubações ao seu habitat.
Vou honrar a sua escolha!
Muito obrigado, B-E-E-E-N-N-N-N-T-E-V-I-S, ben-tevis, ben-tevis!

(*) Bem-te-vi. Disponível em: . Acesso em 26 out 11.